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A raiva tem duas caras
Existe quem explode, e é essa a imagem que virou estereótipo. Existe também quem engole tudo, justamente nas horas em que sentir raiva seria a resposta apropriada — e esse segundo grupo quase nunca se reconhece nos conteúdos sobre o tema.
Emir Baiocchi · Psicólogo · CRP 09/15998 · 24 de agosto de 2026
“Na hora de me defender, eu acabo cedendo. E ainda peço desculpa.”
Quando se fala em raiva e desregulação emocional, a cena que vem à cabeça é sempre a mesma: alguém gritando, batendo a porta, dizendo o que não devia. Essa cena existe, e é real para muita gente.
Mas existe uma segunda cena, e ela não aparece em quase nenhum conteúdo sobre o tema.
É a pessoa que engole. Que não demonstra. Que fica passiva e submissa exatamente nas situações em que sentir raiva — e demonstrar essa raiva — seria a resposta apropriada. Ela sai da conversa concordando com o que não concorda, pedindo desculpa por ocupar espaço, e passa as horas seguintes remoendo o que deveria ter dito.
Por fora, ela parece a pessoa mais tranquila da sala.
Por que a segunda cena existe
Duas razões aparecem com frequência, e as duas fazem sentido.
A primeira é o medo da própria intensidade. Quem já sentiu a emoção chegar no volume máximo em segundos aprende a desconfiar do que pode acontecer se der corda. Não demonstrar vira uma forma de garantir que nada saia do controle — e funciona, no sentido de que de fato evita o estrago imediato.
A segunda é o medo da retaliação. Quem cresceu num ambiente onde emoção era punida, ignorada ou ridicularizada aprendeu cedo que expressar o que sente cobra um preço. Engolir é o que sobrou de estratégia.
As duas têm a mesma consequência prática: a raiva não sai, e o que não sai não desaparece. Ela reaparece como cansaço, como ressentimento acumulado, como explosão desproporcional semanas depois por causa de algo pequeno — e aí a pessoa confirma para si mesma que fazia bem em segurar.
O nome disso no modelo
A DBT descreve três pares de padrões opostos entre os quais a pessoa oscila sem encontrar o caminho do meio. Dois deles explicam bem a segunda cena.
O primeiro par é vulnerabilidade emocional e autoinvalidação. De um lado, ser dominada por ondas emocionais intensas. Do outro, internalizar a voz do ambiente que invalidou e passar a atacar as próprias emoções — tratar a própria raiva como exagero antes que qualquer outra pessoa a trate.
O segundo par é passividade ativa e competência aparente. De um lado, não conseguir pedir ajuda diretamente e acabar obtendo resposta só quando o comportamento sai do controle. Do outro, esconder o sofrimento tão bem que ninguém em volta percebe que existe necessidade ali. Nenhum dos dois é estratégia consciente: são padrões moldados por ambientes que, ao longo de anos, só respondiam diante de emergências.
Quem vive a segunda cena costuma estar nos polos da autoinvalidação e da competência aparente. E é justamente por parecer bem que essa pessoa recebe menos ajuda do que precisa.
Uma consequência que vale nomear
Existe um princípio que atravessa esse assunto inteiro: o fato de um comportamento produzir um efeito no ambiente não significa que a pessoa o tenha feito para produzir aquele efeito.
Vale para quem explode, e vale aqui também. Quando alguém que sempre pareceu bem entra em crise, quem assiste costuma concluir que a crise serviu para alguma coisa — chamar atenção, conseguir algo. O que quase sempre aconteceu foi outra coisa: era o único canal que restou depois de anos de canal nenhum.
O que se faz a respeito
O trabalho aqui é o oposto do que a intuição sugere. Não é aprender a segurar melhor. É aprender a deixar sair no tamanho certo, na hora certa, e para a pessoa certa.
Três habilidades da DBT fazem esse trabalho.
Nomear a emoção. Parece pequeno e não é. Boa parte de quem supercontrola não chama aquilo de raiva — chama de estar cansada, de estar estranha, de estar sem paciência. Sem o nome, não há o que regular.
Verificar se a emoção se ajusta aos fatos. É a pergunta que a regulação emocional treina: o que estou sentindo cabe no que de fato aconteceu? Quem supercontrola quase sempre descobre que sim, cabia — e que a raiva era informação válida sobre um limite que foi atravessado.
Pedir e recusar. A efetividade interpessoal treina três coisas separadas: conseguir o que se precisa, dizer não, e fazer as duas mantendo a relação de pé e o autorrespeito. Elas são treinadas separadamente porque nem sempre dá para maximizar as três ao mesmo tempo, e saber qual priorizar naquela conversa é parte da habilidade.
Um passo pequeno, para hoje
Da próxima vez que a resposta automática for concordar e pedir desculpa, vale reparar no corpo. Nos sinais que aparecem quando a situação foi de desrespeito, e quando o próprio autorrespeito ficou para trás — a mandíbula, o peito, o calor no rosto.
Abrir essa janela de observação é o que cria espaço para uma resposta escolhida no lugar da automática.
É esse o trabalho das habilidades da DBT, e neste caso o de duas delas em particular. Atenção plena, para observar o que está acontecendo enquanto acontece. Efetividade interpessoal, para agir de outro jeito com o espaço que a observação abriu. Espaço para agir diferente é o que aumenta a chance de a conversa terminar em outro lugar.
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Conversar no WhatsAppEste texto é material educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento profissional. Em momentos de crise, o CVV atende pelo 188 — ligação gratuita, 24 horas, todos os dias.
Referências
Linehan, M. M. Terapia cognitivo-comportamental para transtorno da personalidade borderline (1993/2010).
Swenson, C. R. Princípios da terapia comportamental dialética em ação.